Elis, sempre Regina!

 
 
Elis Regina Carvalho Costa foi uma das maiores cantoras da
MPB e é considerada a cantora brasileira mais perfeita
de todos os tempos. Sua obra permanece viva e atual
mesmo após vinte anos de sua morte. Nasceu na cidade
gaúcha de Porto Alegre, em 1945. Foi casada com
Ronaldo Bôscoli, pai de João Marcelo Bôscoli, e com
César Camargo Mariano, pai de
Pedro Camargo Mariano e Maria Rita.

A primeira apresentação da cantora foi no programa
infantil de rádio chamado O Clube do Guri, aos
onze anos de idade. Em 1961, com apenas dezesseis
anos, gravou o primeiro disco intitulado “Viva a Brotolândia”.
Menos de cinco anos depois, o trabalho de Elis ganhou
proporções nacionais quando ela venceu o primeiro
Festival da MPB com a música "Arrastão", composta
por Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Além deste
grande prêmio, o ano de 1965 reservava ainda mais
surpresas. Elis e Jair Rodrigues gravaram o LP ao vivo
“Dois na Bossa” e ganharam o programa de TV
“O Fino da Bossa”, que ficou no ar até 1967.

Viajou à Europa, em 1968, lançando-se no cenário
internacional da música, e tornou-se a primeira artista
a se apresentar duas vezes no mesmo ano no Olympia,
famoso teatro parisiense. Os anos 70 registraram o
aprimoramento musical de Elis Regina. Esta década
foi marcada pelos espetáculos de grande repercussão
da cantora. Um deles, Falso Brilhante, ficou em cartaz
por mais de um ano e teve 300 apresentações realizadas.
Além deste, outros importantes espetáculos foram
Transversal do Tempo, Saudades do Brasil e Trem Azul,
o último antes de sua morte.


Elis Regina era conhecida pelo perfeccionismo
com que conduzia seu trabalho. A energia e alegria
que esbanjava junto da voz doce e suave conquistavam
a todos que a ouviam. Lutou fortemente contra a ditadura
através de sua música e foi uma das defensoras dos
direitos dos músicos em Brasília, tornando-se a presidente
do ASSIM (Associação de Intérpretes e de Músicos).
Foi na voz de Elis que a música “O Bêbado e o Equilibrista”,
composta por João Bosco e Aldir Blac,
tornou-se o Hino da Anistia, e recepcionou os
exilados que voltaram ao Brasil a partir de 1979.

Elis Regina – Fragmentos de uma grande "Mulher"

Não tenho tempo de desfraldar outra bandeira que não
seja a da compreensão do encontro
e do entendimento entra as pessoas"
Elis Regina

Índole vulcânica - "Se ser geniosa, exigente e
não gostar de ser passada para trás é ser mau-caráter,
então eu sou." Elis Regina de Carvalho Costa".

Sensibilidade - Polêmica, sim, mas fora dos palcos,
porque em cima deles era uma unanimidade.
Dona de uma belíssima voz, excepcional técnica vocal
e de uma sensibilidade musical incomparável.

Personalidade forte - A gauchinha tímida e recatada
que começou a carreira cantando na Rádio Farroupilha de
Porto Alegre, cidade onde nasceu em 1945, deu lugar
a uma mulher de personalidade forte e efusiva.

Nervosismo - A primeira vez que esteve na rádio para cantar,
o nervosismo foi tanto que jorrou sangue do nariz sem parar,
manchando o vestido branco de organdi que a mãe tinha feito
para a ocasião tão especial. E foi assim até o fim da vida.
Antes de qualquer apresentação, tremia, gaguejava e precisava
do incentivo dos colegas para encarar a platéia.

Primeiro show - No Rio de Janeiro fez o primeiro show no
antigo bar Botlle's, em Copacabana.

Decidida - Decepcionada com as constantes brigas entre
os organizadores do show, um belo dia sumiu do mapa
sem dar satisfações. Apareceu pouco tempo depois se
apresentando no bar vizinho, no primeiro de uma série
de shows que faria com a dupla Miele e Ronaldo Bôscoli.

Marca registrada - Nesta época, Elis criou os gestos que
se tornariam sua marca registrada. Quando cantava,
levantava os braços e girava-os como se fossem hélices
de helicóptero. Por isso passou a ser chamada de Hélice.
O apelido mais famoso seria dado por Vinícius de Moraes:
Pimentinha. Uma palavra que exprime a miudeza
física e personalidade explosiva.

Sem papas na língua - Declarações bombásticas eram
comuns nas entrevistas.
O talento era intuitivo,
Elis nunca estudou canto,
teoria musical nem aprendeu a tocar qualquer
instrumento que fosse. E fez do palco sua
morada, o único lugar onde reinava absoluta e por
isso não dividia a glória com ninguém.
"Separar-me do palco é a mesma coisa que
castrar um garanhão", disse em 1969 numa
entrevista à Clarice Lispector.

Perfeccionista - A cada apresentação aprimorava
mais sua performance e o sucesso veio a galope,
na esteira da bossa nova. Consagrou-se em 1965
cantando Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes
no I Festival da TV Excelsior. Era então uma garota
de 20 anos, mas costumava dizer que como
cantora "tinha 40 anos bem-vividos".

Fino da Bossa - Na TV Record apresentou, ao lado
de Jair Rodrigues, o programa Fino da Bossa,
considerado até hoje um dos mais importantes
da história da televisão brasileira. Com Jair ela gravou
alguns de seus discos mais vendidos,
Dois na Bossa, volumes I, II e III.

Amadurecimento - Do casamento de poucos anos
com o compositor Ronaldo Bôscoli, em 1967,
costumava dizer que só levou de bom o filho João Marcelo
e um certo amadurecimento pessoal.

Além fronteira - Nesta época, embarcou numa
promissora carreira internacional que só não deu
mais certo porque não conseguia ficar muito tempo
longe do Brasil. No Olympia de Paris, em 1968,
foi ovacionada e voltou ao palco seis vezes depois
do final do show. Após temporada de sucesso
na Europa, casou-se com o pianista e
arranjador César Camargo Mariano, com quem
viveu durante nove anos e teve dois filhos,
Pedro e Maria Rita.

Legião de fãs - Presença constante na televisão,
ela tinha uma legião de fãs que compravam seus
discos e iam aos shows. Falso Brilhante levou
ao Teatro Bandeirantes, mais de 280 mil pessoas
em 257 apresentações, em São Paulo (1975/76).
Só Elis era capaz dessas coisas.

O vulcão apagou - Em janeiro de 1982 e cheia de
planos para o novo disco e cantando melhor que
nunca, foi encontrada morta no apartamento onde
morava no bairro nobre dos Jardins, em São Paulo,
aos 36 anos.  O vulcão apagou, mas
no dia seguinte os muros do País amanheceram
com uma frase pichada pelos fãs: Elis vive.

Curiosidades - Quando Elis casou-se com
Ronaldo Bôscoli, ninguém entendeu. Eram inimigos.
Bôscoli chegou a produzir um show para a cantora
Cláudia com o título Quem tem medo de Elis Regina?
O cronista Carlinhos Oliveira escreveu: "Elis Regina terá
o consolo de saber que a guerra do Vietnã é muito pior."
Numa briga, Elis jogou fora a coleção completa
de Frank Sinatra, ídolo do marido.
No palco: Upa, neguinho (1968)· Arrastão (1968)·
Madalena (1970)· Casa no campo (1971)·
Mestre sala dos mares (1974)· Romaria (1977)·
O bêbado e a equilibrista (1979).

Frases polêmicas de Elis

"Me tomam por quem? Um imbecil? Sou algo que
se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos
queriam, na realidade. Mas não vão conseguir,
porque quando descobrirem que estou
verde já estarei amarela. Eu sou do contra.
Sou a Elis Regina Carvalho Costa que
poucas pessoas vão morrer conhecendo".

"Sempre vou viver como camicase.
É isso que me faz ficar de pé".
"Quem não deu suas mancadas?"

"Meu problema são 10 centímetros a mais;
então estaria tudo resolvido".

"Um dia as pessoas vão descobrir que Dalva
de Oliveira é a nossa Billie Hollyday".

"Cantar, para mim, é sacerdócio. O resto é o resto".

"Eu quero é ficar como bigode: nas bocas e por fora".

"Eu quero é ter vida privada, e não privada na vida".

"Sou como assum-preto, que precisa cantar
muito mais depois que lhe tiram os olhos".

"As pessoas que me chamaram de
mau-caráter estavam se autocriticando".

"É bacana correr riscos e eu não fico só
na janela vendo a banda passar".

"A lucidez me leva às raias da loucura".


Pesquisa:
Mary Trujillo


Todos nós já sabemos que...
aos 36 anos de idade,
no dia 19 de janeiro de 1982,
Elis Regina nos deixou.
Nós, o Brasil e a MPB sofremos
uma grande e irreparável perda.
Partiu a mulher com "M" maiúsculo, a maior
cantora do Brasil, a mais bela voz do Brasil!
Deixemos que a causa da sua morte seja
de uma vez por todas esquecida. Porque a nossa maior
cantora merece o nosso respeito.
Ainda choram como eu... muitas Marias e Clarices...
a falta dessa "cantora fenomenal, dessa mulher
que só foi motivo de orgulho para a nossa pátria
chamada Brasil.

E... como ela mesma disse:

"Agora o braço não é mais o braço
erguido num grito de gol.
Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro
espelhado e brilhante.
E todas as figuras são assim: desenhos de luz,
agrupamentos de pontos de partículas, um quadro
de impulsos, um processamento de sinais.
E assim ­ - dizem - recontam a vida.
Agora retiram de mim a cobertura de carne,
escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios
luminosos e aí­ estou, pelo salão, pelas casas,
pelas cidades, parecida comigo.
Um rascunho.
Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra.
Como uma estrela.
Agora eu sou uma estrela."
(Elis Regina)

Mary Trujillo

* Nota:
"Regina" em italiano significa "Rainha"
 
 
 
art & formatação by Mary Trujillo