Cordel Hortifrutigranjeiro
Tere Penhabe

Em todos os segmentos
de qualquer sociedade
tem gente de todo jeito
de toda modalidade
desde aquele imaturo
ao que está em cima do muro
e nunca sai de verdade.

Levando em conta eu mesma
pela minha situação
que não fui eu que cavei
e nem sequer dei a mão
mas eu sou uma viúva
que nesse cordel saúda
amigas do coração.

Essas mulheres brejeiras
que perderam o marido
vendo a vida de repente
ficar sem nenhum sentido
só olhando na vitrina
o que à casada, repugna
morrendo sem ter morrido.

Vai daí que eu encontrei
nesse final de semana
aquela penca de viúvas
quase como a de banana
o fato é que de novo
vieram no meu cafofo
trocar prosa e não muamba.

Não pensem que são chorosas
que o tempo se escafedeu
já chegaram lá no ponto
"antes ele do que eu"
mas fiquei observando
diferenças constatando
lá vai o relatório meu.

Tem viúva que é bonita
de fechar comércio e rua
mas o tempo salafrário
já não deixa posar nua
então culpa a companheira
por aquela comideira
que engole e já nem sua.

Diz que sozinha não come
(ninguém sabe como engorda)
mas não é nenhum segredo
que pra cerveja dá corda
bebe que nem aloprada
fica valente e arrojada
querendo arrombar a porta.

E o pior nem é isso
que eu bem digo:- antes fosse!
Porque na hora do almoço
pega aipim e batata-doce
a vinte contos, o preço
(ai meus sais, eu não mereço!)
e ainda tem quem endosse.

Que a avalista desse feito
(parco em inteligência)
de noite, come jiló
pagando uma indecência
cinquenta contos o quilo
meu Deus, nunca vi aquilo!
(Ô gente mais sem consciência!)

Já tomei a decisão
não vai ter quem me demova
no nosso próximo encontro
lançarei a moda nova
vou levá-las pra almoçar
na feira-livre, e jantar
será aqui em minha alcova.

Que a baixinha dessa turma
já fez a declaração:
-Couve-flor é o que mais amo!
Quem aguenta a situação?
Eu não mereço o castigo
ter essa turma comigo
faltou amar chuchu e feijão.

Agora vejam vocês
e tenham pena de mim
com jiló e couve-flor
batata-doce e aipim...?
O meu cafofo é um ovo...
depois que comer, esse povo
quem aguenta ficar aqui!?

Mas vamos à motorista.
Estar viva é um milagre!
Ela vira pra direita
que pra esquerda ela não sabe
só sabe que aquela rua
de retornos ela é nua
e diz que a carta não vale.

Pede a Deus e aos orixás
sem saber a quem pedir
uma motorista nova
para com a turma se unir
porque o carro ela garante
contudo, daí por diante...
não nasceu pra dirigir!

E a donzela do lado
vai esnobando o saber:
- Moro aqui há trinta anos
pois tenho que conhecer!
Faz o balão, vai em frente
se não encontrar de repente,
pergunta, porque eu não sei.

A outra eleva as mãos
na madeixa bem cortada
(donkieutô? pronkieuvô?)
me salve, companheirada!
Que falta me faz o bem
que ele dirige tão bem,
ah que saudade danada!

E já ia terminando
a noite aqui na baixada
só por Deus, todas inteiras
nenhuma esbofeteada
mesmo tendo injuriado
lá na pizzaria, o fado
de sedução malfadada.

Quase ia me esquecendo
do garanhão de costume
que tem em todo lugar
quase que nem vaga-lume
com a loirinha ninfeta
que lhe servia de neta
posando de grande homem.

Em altos brados dizia
a viúva encervejada:
- Eu não tenho preconceito
mas isso é cafajestada!
O cidadão olhava feio
querendo cortar no meio
a mulher da mesa ao lado.

Que era uma das viúvas
a valente sem rebite
depois de beber as vinte
(diz ser quatro o seu limite)
sai de baixo quem puder
vira um demônio a mulher
inda diz que é socialite.

Ao amanhecer o dia
paira outra vez a bonança
todas com caras de santa
parecendo até criança
ninguém diz o que se passou
na noite que se acabou
de manguaça e comilança.

Santos, 14.10.2007
www.amoremversoeprosa.com


Arte e Formatação: Tere Penhabe
midi: feira de mangaio - Sivuca & Glória Gadelha
 
 
 
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